Vicarious Liability
segunda-feira, novembro 20, 2006
  Dicionário das expressões frequentes da política portuguesa, que já era tempo de deixar de usar
"As sondagens valem o que valem" – é a frase que tipicamente diz muito sem dizer nada. Pronunciada um pouco por todos os que aguardam uma derrota, nem avalia exactamente qual é o peso das sondagens, nem as menospreza. Claro está que não fica bem a um candidato mal posicionado, admitir, à priori, uma possível derrota. Mas poderia limitar-se a afirmar que iria até às urnas, independentemente das previsões.

"Vou estudar os dossiês" – expressão que ocupa um lugar de luxo no léxico do actual Presidente da República – e que invocava frequentemente nos seus tempos de primeiro-ministro. Equivale a promessa de trabalho. Mas os dossiês governamentais são como a matéria de um exame: não se diz que se estudou, nem se promete estudá-la. Apenas se estuda e demonstra-se conhecimento sobre a mesma.

"Estou disponível para candidatar-me ao lugar “x”" – leia-se, “saiam da frente que o poleiro é meu”. Parece mais claro dizer-se que “quero canditar-me ao lugar x”, ou que “vou fazê-lo”. Porque o exercício de funções na vida pública, não é hoje, para ninguém, uma questão de disponibilidade ou de sacrifício. Apenas de vontade.

"O Ministro Y saíu por razões pessoais, familiares e de cansaço – não, não estou a referir-me a Luís Campos e Cunha, nem a Freitas do Amaral. Também não quero afirmar (grave pecado) que os nossos governantes andam por aí a contraír o síndrome Maria Elisa.

Só que, via de regra, os Ministros não saem para ter mais tempo para ir com as esposas ao supermercado ou ficar a ver os desenhos animados com os filhos ao sábado de manhã. Também não se demitem para serem pais mais zelosos nem para cumprirem com maior eficiência outros deveres conjugais – pensa-se que o serviço à causa pública (penosa tarefa), ainda lhes reserve algum entusiasmo para se entragarem a outras causas privadasporventura não tão úteis para o bem da Nação

Demitem-se porque se incompatiblizaram com o primeiro-ministro, porque se tornaram incómodos, ou porque encontraram cargo mais útil noutro lado.

"Ainda não decidi, tenho de consultar a família" – pois caros amigos, isto não é necessariamente sinónimo da existência de decisões participadas no lar do político em questão. Também não significa que é um falhado e que a mulher é que manda nele. Sequer que as criancinhas de 4 anos, possam apresentar uma dissertação ponderada sobre as vantagens e as desvantagens do pai aceitar determinado lugar. Quer apenas dizer que a decisão está tomada, mas que não é o melhor momento para apresentar.

"Estamos a trabalhar" – é a expressão mais querida do léxico de um primeiro-ministro ou de qualquer outro titular de um órgão com funções executivas. Só que, tal como os dossiês, o reformismo não se apregoa em frases feitas a saber a sorrisos e inundadas de nada. O reformismo sólido, é aquele que se conhece mesmo sem o seu autor o publicitar.

"O Sr. A era um homem de Bem" – acertaram, frase inevitável em funerais. Comove qualquer jornalista, convida qualquer espectador a reproduzir o mesmo com os amigos no café. Só que lá diz o ditado “de boas intenções está o inferno cheio”. Com efeito, na vida pública, ninguém está interessado em saber se alguém é bom ou mau, afável ou irrascível. Creio que já nos podemos contentar quando cumpre bem as suas funções e não tem mais palavras do que actos.
 
Comentários:
É claro que as pessoas não gostam de ser directas e claras, preferem usar eufemismos e desse modo estarão sempre salvaguardadas se tiverem de enfrentar situações inesperadas que as obriguem a retroceder!
Além disso, há sempre quem não perceba o que querem dizer!
E depois um "homem bom é um homem morto", ou como diz um ditado chinês "só há 2 homens bons: um ainda não nasceu e o outro já morreu!"
Marianne
 
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